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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

conto para livro da Academia de Letras em Ouro Preto, MG

“FAZ ALGUM TEMPO QUE VENHO ME REMOENDO, BUSCANDO ALGO EM MIM QUE NEM SE PERDI.”






A saudade é mesmo uma coisa engraçada, coisa em seu sentido mais literal, não tem o que a defina precisamente. Estado, momento, paixão, espera, constante espera, mesmo que em alguns casos tudo seja em vão.



Quando criança vivia no tempo mágico do “não passar o tempo”. E como este durava, parecia que em um único dia havia uns dois ou três, e tinha uns dias que davam a impressão de se ter mais ainda. O Chato era só no natal e aniversário, a espera era grande... Quase infinita, vai ver era infinita.



Assim me lembro dos dias em casa com minha avó, das brincadeiras, do gosto das coisas, do aprendizado diário, do cheiro, das plantas do quintal sendo regadas com seu balde cheio d’água, onde minha vó Teresa conseguia regula a água ofertada a cada plantinha com leves tapas dentro do balde cheio.



Assim era a vida no interior do Brasil, Em Ouro Preto no meio do bairro Antônio dias, na Rua Padre Tobias no número 161. Eu criança pequena, cansada das aventuras do dia e minha saudosa “vó Teresa”.



Era sempre o mesmo ritual, antes de me banhar, quem tomava banho por primeiro eram as plantas, as verduras, lavamos o quintal (luxo que hoje em dias devemos repensar!). as plantas pareciam esperar o entardecer para se banharem, para também repousarem suas folhas e flores.



Fui uma criança que recebeu um presente maravilhoso da vida; tive a oportunidade de brincar, correr, colher abacate, pitanga, cozer as coisas com uma agulha feita de espinho de pé de lima e com linha feita com cipó. Tudo isso e muito mais em um quintal que não era gigante, porém nele se encaixava perfeitamente todos os meus sonhos e quereres de aventura.



Sempre quando fico um bom tempo sem escrever algo, depois, quando de súbito me vem uma vontade incontrolável de escrever, me recordo vividamente das minhas primeiríssimas lições. Acontece que neste quintal avia uma pequena parte que tinha um cimentado, fora ali que minha vó Teresa me ensinou os primeiros passos da escrita, me despertou o gosto por escrever, por querer conhecer as coisas a fundo. Ela, por ter nem completado o estudo primário sabia da importância de tal ato.



Pois é foi assim mesmo que aprendi a esboçar as primeiras letras de minha vida, num pequeno espaço do terreiro com cimento e com um pedaço de “pissara” (pedra que se parece com gesso) cinza que sempre se esfarelava e quando não se esfarelava lá estava a vó Teresa a me fornecer boas e novas dicas.



Uma das primeiras letras que aprendi a dominar fora a letra “m”, não sei o porquê esta letra fora a escolhida, talvez por ser a primeira letra do nome de minha avó, que se chamava Maria Teresa. O fato é que aprendi, graças a ela ao infalível método de assimilar a letra “m” aos dentes de um serrote. E funcionava mesmo. Quando entrei para a rede escolar na Escola Estadual Marília de Dirceu, já sabia alguma letra ou outra, sói não sabia o que fazer com a estranheza de sentimento que sentia por não estar com minha avó em nosso quintal. Em nosso mundo.



Por isso, iniciei esta crônica falando de saudade, é uma coisa estranha, por mais que eu gostasse de tudo quando era criança, sempre queria ser mais velho, sonhava com uma liberdade que a gente só pode ter quando se é criança, na verdade.



Hoje em dia acho que bem lá no fundo nós sabemos como é gostoso sentir-se invadido por este sentimento, deve ser esta a razão para ficarmos querendo adiantar o viver. Mas quando vem a tal saudade, é cada coisa engraçada que vem, por exemplo:



Um dia, brincava eu com minha avó por mais que me esforce não consigo recordar de que brincávamos, só sei que me sentia feliz, pois é; brincávamos no quintal, era uma tarde fresca, quando, do nada surgiu um gato, o bichano surgiu como se houvesse atravessado outra dimensão e caído bem perto de onde minha avó cultiva umas b bananeiras. E lá fora eu com um galgo de pitangueira em punho averiguar o fato. Sentia-me o “Dom Quixote” do lugar, saí em disparada, pois ao me aproximar demais do bichano ele se assustou, na verdade nos assustamos. Corri o mais rápido que pude, ate que senti uma dor forte no dedão do pé direito, na parte de fora dele.



Quando olhei, de eu pé saia uma água vermelha que mais tarde fui descobrir que era sangue, e que doía quando ele saia de nosso corpo.



Meu deus, como ardia aquilo!



A minha avó, com toda a sua paciência e sabedoria veio me acalmando, limpou o dedo ferido, percebeu que um pouco era manha de criança, e me ajudou. Ainda ecoa em meus ouvidos a seu pedido em tom de ordem:



- Deixa a água cair ai em cima, fica com seu pezinho aqui...



E antes mesmo de completar a fala havia sumido pela porta da casa que dava acesso ao nosso quintal. Alguns segundos depois, retornou com uma corda preta que tinha cheiro forte, era seu “fumo de rolo”, seu remédio caseiro para emergências em feridas e para outras coisas que ela achasse conveniente.



Daí começou a mascar um pedaço meticulosamente cortado com um pequeno canivete de bolso e depois de bem macerada tirou a corda da boca e espremeu um sumo forte que parecia bem amargo sobre o dedo do pé machucado. Isso fez a sensação de ardência aumentar consideravelmente, qualquer criança choraria, eu não obstante e não diferente das demais, chorei um bom tanto. Mas depois de um tempo não me lembro se doeu ou se não doeu, pois eu ainda acredito que ela tenha feito alguma mágica para eu dormir, quando me despertei já era noite, o machucado já não ardia, e também, já não tinha mais tempo para brincar. Neste dia não ajudei a regar as plantas, na verdade não sei se elas foram regadas.



Quando vamos envelhecendo, as pessoas com as quais trocamos bons pares de momentos vividos começam a sumir, como se tivessem se apagando aos poucos de nossa memória. O bom é que às vezes voltam, e é como se tudo houvera passado há dias atrás. Aí vem aquele leve cheiro do velho móvel encerado, o som do velho sino a espantar os pombos, que como as notas tocadas batem suas asas por aí. Surgem milhares de pessoas que sem saber o motivo haviam sido esquecidas, colocadas lá em algum cantinho da memória.



Sabe aquela vontade que todo mundo tem um dia de viver tudo novamente? Acabo de descobrir que ela esta em mim agora.





Rômulo Ferreira

romulopherreira@gmail.com

www.romulopherreira.blogspot.com

2 comentários:

Anônimo disse...

Se não for, está entre uma das melhores coisas ja escritas por você!

Perfeita narração. ótimo enredo e um contexto profundo sem perder a linha ou duplicar sentidos, direto. Literatura q transforma, cada palavra nos põe a necessidade de continuar a leitura...

Rodrigo de Assis Passos disse...

amei a frase essa frase("O poeta aponta a lua, o imbecil olha o dedo")

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