sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Matéria na Revista Brasília jun/jul 2014






A Coragem de ser Poeta

Por Teresinka Pereira – USA
Publicado na edição nº 121 (Ed. Jun/jul 2014) da Revista Brasília – páginas 36 e 37

O poeta é Rômulo Ferreira.
Seus versos são elegantes, essenciais e realistas.
Não precisam de título:

Meu poema é quase nada
É quase tudo
Anda no meio, pelo meio
Criando meios de sobreviver
Nesta jaula de criar solidão.

Estes versos descrevem bem o processo poético de um verdadeiro poeta profissional, cujo trabalho é escrever poesia, fazer livros de poesia e vender a poesia, para que não só o poeta possa sobreviver de seu ofício, mas também a poesia possa nele sobreviver.
Faz uns anos conheci em Denver, no estado do Colorado, aqui nos EUA, um grupo que se dava o nome de “Street Poets”. Eles faziam um show nas ruas de Denver, mas eram de diferentes partes do país, principalmente de Nova York. Um dia os convidei a uma reunião em minha casa e o show que fizeram foi sensacional! A poesia declamada e atuada por cada um deles e algumas em conjunto, era de primeira classe, sonora e podia ser cantada, conteúdo original, estrutura agradável. Eles eram poetas profissionais, mas adotando o nome de “Poetas de Rua” faziam seu comércio poético lucrativo e libertário. O chefe do grupo, com o qual correspondi durante algum tempo era Dan Propper. Perdemos o contato porque ele organizava grupos também em Nova York, nas cidades da Califórnia e não fixava residência em nenhum lugar. Mas deixou comigo para sempre a admiração e a saudade.
Agora me aparece Rômulo Ferreira, um street poet no Rio de Janeiro, que diz em seus versos:

Meu poema nem é meu
Ele faz parte de um povo
Que caminha as mínguas
Pelas ruas daqui,
De onde manifesto desejos.

Estes versos  foram escritos, como ele mesmo disse numa carta, numa máquina de escrever “Ollivett”, não em computador, em papel que ele mesmo confecciona  em casa. E como os “street poets” americanos, é também um pouco nômade: Rômulo Ferreira não é carioca, é mineiro como eu. Deslocado de sua cidade natal, que é a famosa cidade da inconfidência Mineira, a de Ouro Preto, tem viajado muito colhendo experiências cosmopolitas importantes: esteve no Chile, inclusive conheceu a casa de Pablo Neruda, do qual é grande admirador.

Rômulo Ferreira não é o único “street poet” do Brasil. Em Brasília está outro famoso poeta que vende seus livros na rua, desde muito jovem: Nicolas Behr. Ele escreveu um famoso poema sobre o rato do computador que eu traduzi para o inglês: “YES, THE MOUSE BROUGHT THE STAMP” e que ainda está correndo o mundo.

Rômulo Ferreira não é só vendedor de livros, é um empresário em todo sentido da palavra. Tem um informativo literário chamado AMEOPOEMA, como segundo E ao revez, que eu nãoposso reproduzir no computador onde escrevo isto, e tem um logo relativo ao poeta de rua que ponho aqui, porque este logo vale mais que um poema:
((((logo circular do ameopoema))))
Aproveito aqui este logo para anunciar que a Associação Internacional de Escritores e Artistas, tem um membro de honra que é artista de rua: Rafael Pio. Ele é paulista, mas foi tocar com seu grupo nas ruas do Rio de Janeiro e foi molestado pela polícia da cidade. Então ele enfrentou o conflito e ganhou, conseguindo que a administração da cidade e a polícia mudassem alei para permitir os concertos de rua. Um grande pioneiro, o artista Rafael Pio!

Mas que tudo, o artista, músico, poeta de rua são os patrocinadores de nossa liberdade. E como Michel de Montaigne disse há muito tempo atrás, “A VERDADEIRA LIBERDADE É TER TODO O PODER SOBRE SI MESMO.”

O poema cujos versos citei acima termina assim:

Meu poema que dou ao mundo
É uma pedra
A gota d’água
No copo cheio da ignorância...
É uma farpa fina
Que te cortará e nunca mais encontrará
A palavra cicatrizante.

Pessoalmente não acredito em classes sociais, mas a escritura pode nos apresentar uma certa classe diferenciando o escritor  clássico, que conhece a história da literatura e o criador popular. Entretanto o escritor Reis de Souza, autor de tantos livros bem conhecidos pela crítica brasileira, disse o seguinte em favor de quem sabe escrever: “O ESCRITOR BRASILEIRO, DE QUALQUER NÍVEL REPRESENTA A PARTE MAIS CULTA DA SOCIEDADE, SUA ESSÊNCIA MAIS PURA E PARCELA QUE TECE A PRÓPRIA ALMA NACIONAL.” E talvez seja bom reconhecer a verdade dessas palavras do colega Reis de Souza. O poeta que pode escrever, imprimir e vender sua própria poesia e com isto marcar o pensamento e o sentir do povo que passa pela rua, não é só um grande empresário, é um criador de intelectuais.

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