domingo, 28 de novembro de 2010

XXIII

“Quase perdido, meio esquecido, desapercebido. Aquele pobre homem nu de amor, sombrio em esperanças, amordaçado desde o primeiro choro. Agora chorar não mudará muito, o lamento deve ser sentido, a angustia deve ser absorvida, a cultura totalmente esquecida.



Clarificando-se o horizonte com novas armas, sede de chuva, medo do sol; esquecemos do agreste?


E a resposta desce igual a fogo, pior que cachaça ruim numa segunda feira pela manhã. Opções, algumas foram dadas... Mas não tínhamos como pensar, a fome era de estagnar a mente, dentes? Todos aos cacos em suas bocas... Nem as cáries agüentaram tanta miséria, se foram na primeira colherada de água com farinha e um pouco de barro. A casa de barro já não agüenta mais nada, 17 pessoas dividem tudo o que não tem...


Nunca choram na frente um do outro, nem em frente as câmeras de TV. Isso desanima os mais jovens e desespera os já a beira da morte (do alívio?)


A cachaça ainda não tomou bom gosto, segue amarga e triste. A cada novo gole, uma vontade do próximo, e pela noite se enveredam em busca de alguma coisa para se alegrarem, mesmo sabendo que nada terão para tal ato, mas seguem e ainda ao verem o luar mostram sem a mínina vergonha seus poucos cacos de dente.


Nada mais importa, importa é suportar a angústia de não ter esperança... De não saber como agir noutro dia. Como viver e ver seus 15 filhos a beira de um colapso intestinal “antrofiático”?


No canto da sala um quadro de São Jorge, cavaleiro e guerreiro. Pobres dos que fazem da fé seu alimento... Mas lá está ele, quieto sobre seu dragão já dominado, não se sabe como, mas há sempre alguma vela para ele. Noutro canto algumas fotos, quase todas queimadas pelo sol impiedoso, mostram rostos cansados e até umas roupas melhores, mas fotos não têm fome, nem sono, nem dor.


São memórias que aumentam em doses cavalares de saudade a sofreguidão destes pobres seres desafortunados”






Rômulo Ferreira (2007-MG)

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